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12 de janeiro de 2022

Chantelle Pérez – Talkeando Podcast #024

No episódio 24 do Talkeando Podcast, gravado diretamente de Dublin, na Irlanda, o apresentador recebe Chantelle Pérez, uma drag queen brasileira cheia de personalidade, humor e histórias poderosas para contar. A conversa passeia por temas profundos como racismo, identidade, imigração e autoafirmação, tudo com a leveza e a autenticidade que só uma boa conversa entre brasileiros consegue proporcionar.

Chantelle compartilha sua trajetória desde Atibaia, no interior de São Paulo, até os palcos da Irlanda, revelando como se tornou drag queen, os desafios de ser um homem negro e gay no Brasil, e como morar fora do país transformou completamente sua visão de mundo.

A origem de Chantelle como drag queen — e a conexão com Pabllo Vittar

Chantelle começou a se montar aos 17 anos, ainda no ensino médio em São Paulo. O impulso veio de uma vizinha muito especial: nada menos que a criadora do nome artístico de Pabllo Vittar. Em um churrasco descontraído, a vizinha a maquiou, colocou uma peruca, e ali nasceu a vontade de se expressar através da arte drag. Porém, durante o período no Brasil, a montação era esporádica e restrita às noites paulistanas. Foi somente ao chegar à Irlanda que Chantelle profissionalizou sua arte e encontrou espaço para brilhar de verdade.

Ser negro e gay no Brasil: um caminho de luta e autoafirmação

Com muita honestidade, Chantelle fala sobre os desafios de crescer sendo negro, gordo e gay no Brasil. Ela relembra como a pressão dos padrões estéticos brancos a levou a alisar o cabelo compulsivamente, causando danos severos ao couro cabeludo que resultaram em calvície e na necessidade de transplante capilar. Esse processo doloroso de tentar se encaixar em um padrão que não era o seu durou anos, mas a jornada de autoaceitação a tornou uma pessoa segura e consciente do seu valor. Hoje, Chantelle afirma com orgulho: “Eu sei quem eu sou, e nada me abala.”

Racismo estrutural: as raízes históricas que o Brasil insiste em ignorar

A conversa mergulha em uma análise profunda sobre o racismo estrutural brasileiro. Chantelle destaca que o Brasil foi um dos últimos países do mundo a abolir a escravidão, e que isso só aconteceu por pressão internacional, não por vontade própria. Após a abolição, os negros foram simplesmente “jogados” na sociedade sem terra, sem acesso à educação e sem nenhuma forma de reparação. Leis que impediam negros de estudar e possuir propriedades criaram uma corrente de consequências que persiste até os dias atuais. Chantelle reforça: “Racismo existe sim, gente, e é algo que a gente precisa falar.”

A perspectiva de morar fora: racismo no Brasil, na Europa e nos EUA

Morar na Irlanda deu a Chantelle uma perspectiva única sobre como o racismo opera de formas diferentes ao redor do mundo. No Brasil, segundo ela, o racismo é descarado e cotidiano. Na Europa, a experiência é diferente — a pessoa acaba se “desacostumando” do racismo e vivendo de forma mais livre, embora episódios como o sofrido pelo Lucas do Padre na Irlanda mostrem que o problema também existe por lá. Já nos Estados Unidos, especialmente em Nova York, Chantelle viveu a melhor experiência da sua vida ao ver negros em posições de poder — médicos, profissionais de destaque — e uma comunidade que se apoia mutuamente. Essa vivência contrastou fortemente com a realidade brasileira, onde, segundo ela, existe uma cultura de desvalorização do próprio povo negro.

O Brasil não valoriza o que é brasileiro — e a educação é a chave

Um dos pontos mais marcantes do episódio é a reflexão de Chantelle sobre como o Brasil não valoriza o que é seu. Ela usa o exemplo da cantora Anitta: uma artista brilhante e inteligente que só seria plenamente valorizada pelos brasileiros se fosse uma “força americana”. Esse comportamento se estende a diversas áreas, inclusive ao SUS, que Chantelle passou a valorizar depois de precisar usar o sistema de saúde irlandês e perceber suas limitações. Para ela, a raiz de todos os problemas está na falta de educação política. Se as crianças brasileiras aprendessem sobre política desde cedo, o país teria as pessoas certas no poder e se tornaria a potência mundial que tem potencial para ser.

Por Que Você Deve Ouvir Este Episódio

Este episódio do Talkeando Podcast é muito mais do que uma entrevista — é uma aula de vida, história e resistência. Chantelle Pérez traz uma combinação rara de humor afiado e profundidade emocional, transitando entre risadas genuínas e reflexões que fazem a gente repensar o mundo ao nosso redor. Se você é brasileiro morando fora, vai se identificar com inúmeros momentos. Se mora no Brasil, vai ganhar uma perspectiva que talvez nunca tenha considerado.

A conversa toca em temas que raramente são discutidos com tanta honestidade: o peso de crescer negro e gay em um país que ainda luta contra o racismo estrutural, o processo doloroso e libertador da autoaceitação, e como a experiência de imigração pode abrir os olhos para realidades que estavam sempre ali, mas que a gente não conseguia enxergar de dentro. Chantelle não foge de nenhum assunto e entrega verdades com coragem e carisma.

Se você busca inspiração, representatividade e conversas que realmente importam, este episódio é imperdível. A história de Chantelle prova que conhecer a si mesmo e abraçar quem você é de verdade é o ato mais revolucionário que existe.

🎧 Ouça o episódio completo com Chantelle Pérez no YouTube: Assista aqui ao Talkeando Podcast #024

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